O Espírito do Trail

O meu pai, que é um homem sábio, repetia-me muitas vezes para não usar o corpo, mas o espírito.

Explicava que um dia o corpo já não seria o mesmo, ou falharia, e nessa altura tinha mesmo de chegar lá através de argumentos convincentes.

Foi uma das mais valiosas lições que me deu.

O início de 2014 foi desastroso… Tinha uma gripe tremenda, apanhada nas últimas semanas de 2013, uma daquelas doenças mortais para qualquer homem, e que para as mulheres se curam com um bem-u-ron 500. A gripe teimava em não se ir. Eu teimava em não ficar quieto.

E ainda doente, com 38 ou 39 graus de febre e dois ou três comprimidos no bucho fiz a primeira prova do ano, Proença a Nova, 20kms, 16 deles com cãibras. Mas fez-se… Haja espírito!

Pouco depois estava em Sicó. Meio recuperado, mas não treinado. Fui com o Lizardo e a Susana Santos e demorámos uma eternidade para acabar aqueles 40 ou 50kms, mas, pelo caminho ainda recolhemos um par de cadáveres – já só o corpo – que estavam pela beira das estradas, dancei o vira no arraial que parou por causa das minhas meias cor-de-rosa e comi um quilo e meio de queijo.

A 10kms do fim endrominámos uma coitada de uma rapariga que ia desistir, convencendo-a a não o fazer, e depois esquecemo-nos dela pelo caminho, nunca soube se concluiu a prova ou se por lá anda ainda hoje, em espírito.

De Sicó para Vila de Rei, 60kms. O treino estava curto, mas não fazia grande mal. Em 2013 tinha feito lá os 40kms e tinha adorado, os 60 iam ser tranquilos.

E foram. No ritmo… Sobretudo porque me esqueci de levar sapatos de trail, tendo corrido com uns sapatos de estrada com mais de 1000kms, os quais consegui derreter e rasgar de uma ponta à outra. Mas ganhei confiança. E quem anda nesta vida sabe que confiança é quase tão importante como as pernas.

Não foi bem assim. Não ganhei confiança só na prova. Eu já ia confiançudo! Seguro de mim. Apostei tudo em acabar a prova rápido. Mas não acabei rápido. E ficou noite… E eu não tinha frontal.

Avancei noite dentro sem luz na carola e lá fui eu. Meio a tremer de medo, por causa dos espíritos. Cheguei ao último abastecimento, com o corpo já dobrado, e perguntei como era o caminho. Disseram que faltava o pior, a cascata. Eu ri-me. Pensei que estvam a brincar… Segui caminho, confiante que o corpo, mesmo sem pés, tinha vencido – no ano anterior tinha ali estado e não havia cascata alguma, mas no ano anterior o percurso tinha sido alterado no dia da prova, por causa de umas cheias, e eu não me lembrava disso.

Claro que havia uma cascata, a qual eu descobri quando a ouvi, já que não via um palmo à frente do nariz. E depois ainda descobri que a tinha de subir.

Chegámos então a um impasse. À frente tinha uma cascata para trepar, às escuras. Para trás significava desistir e voltar ao abastecimento, só que esse caminho obrigava-me a passar numa casa que, ela sim estava cheia de espíritos…

Subi. O medo de cair de uma cascata, em cima das pedras e me perder rio a baixo, não era tão grande como voltar à casa dos fantasmas. Uma pedra de cada vez. Agarrava-me com todas as forças, chorava um bocadinho e continuava. Fiz uma data de cortes nas palmas das mãos com a força que fazia, para ter a certeza que não me espetava.

Mas acabei a prova, deixei na meta o resto dos sapatos e 7 unhas dos pés. Lá se foi o corpo!

Umas semanas depois, ainda não refeito da sova juntei-me ao resto da malta para o treino de última oportunidade para o MIUT

Era em Sintra, um percurso inventado pelo Didier, ideal para um treino nocturno.

Ponto de encontro à frente do Palácio da Vila, à meia-noite, e seguimos caminho. Bom… Uma parte do grupo seguiu caminho, eu fiquei perdido ainda na vila com outros dois… Andar de um lado para o outro, gritar pelos nomes dos que nos faltavam e lá apareceram, como visões do além, para nos salvar.

Já eu estava com frio e com sono. Subimos até ao Castelo, entrámos nas muralhas pelo muro e saímos uns por cima do portão outros por baixo. Depois de ver as dificuldades do Gião no chão, nem arrisquei, na altura ainda pesava cento e poucos kg. Usei o espírito e poupei o corpo a uma história digna do Martim Moniz…

Continuámos o treino e o meu corpo começou a desligar. Não tinha, de todo, ritmo para aguentar o resto dos participantes. E fui fechando e dormitando. Já estava completamente morto quando chegámos ao lado da Malveira da Serra.

Eram cerca das 4 da manhã e ainda faltavam cerca de 10kms para o fim do treino. Ouvi uma conversa, eu sei que é muito feio, de outros dois corredores. Um falava num carro que estaria logo à frente e que os levava até ao ponto inicial.

Avisei logo “Eu vou nesse carro”. Nem conhecia bem o tipo, era o João Branco, que fazia dos primeiros treinos com a malta.

“Não sei se cabemos todos” responderam-me. É que havia mais desistentes.

Calei-me bem caladinho, era uma grande trapalhada, não tinha mais força e estava a ficar para trás na Serra. Tinha chegado a altura para que o meu pai, muitas vezes, alertara, não podia contar com o corpo. Ia ser o espírito a salvar-me daquela situação.

Fiz-me de sonso e de adormecido e fui-me juntando aos dois fugitivos. Da minha parte, nem uma palavra. Quando, alcançámos o carro, o João destrancou as portas, fazendo um compasso de espera, para contar quantos podia levar e eu, zuca! Atirei-me lá para dentro.

Antes de qualquer frase de expulsão, decidi usar o espírito e disse, assertivamente, enquanto alargava os ombros e punha uma cara de poucos amigos “Eu vou neste carro, se alguém não quiser, pode ir a pé!”

Aposto que o meu pai teria ficado orgulhoso por saber como aprendi a resolver as questões só com o espírito, o Espírito do Trail!

O EGO

 

Se eu mandasse, à entrada para qualquer local de desporto haveria uma placa que diria “O EGO FICA À PORTA”.

No desporto não há lugar para egos.

Isso não é o desporto.

O desporto é exactamente o oposto é desprendermo-nos do que somos, ao serviço de uma determinada modalidade. Seja individual ou colectiva.

Claro que existem motivações para fazer desporto, e claro que estas são pessoais e intransmissíveis. Um corre para emagrecer, outro faz cross fit para ficar maior, este faz ultra maratonas para contar aos amigos e aquele faz surf para se sentir no meio da natureza.

Mas passando essa motivação, que nos tira da cama, faz-nos vestir enquanto ouvimos a chuva a bater na janela e sentimos um arrepio ao vestir a camisola, depois manda-nos para o carro, sozinhos, para um dia mau de treino, começa o desporto.

E no desporto o ego fica à porta.

No momento em que saímos do carro, entramos no balneário, ou a porta da rua fecha-se atrás de nós, já não interessa, para nada, aquilo que nos levou ali. Interessa sim, fazermos o melhor que conseguimos, por nós, e, sobretudo, pelo desporto que representamos.

Daqui a um mês e meio faço 4 anos a correr à hora do esquilo. O tal treino das 6 da manhã em Monsanto.

Faço 4 anos deste grupo que se tornou numa equipa. Peguemos na primeira regra da hora do esquilo, “quando dois quiserem, há treino”.

Num desporto que se diz individual, numa equipa que nem sequer existia, o objectivo sempre foi trabalhar para o homem do lado. Bastava juntar duas pessoas, menos que isso, não chamaríamos treino à hora do esquilo, era só treino. O nosso treino era feito, pelo menos, a dois.

Preparavam o Paulo Picão para o UTMB 2013, e nem que chovessem canivetes, alguém tinha de ajudá-lo a conquistar a montanha. E ele retribuía, com a sua famosa generosidade e confiança. Normalmente, depois de alguém anunciar que ia fazer a primeira ultra, perguntávamos se tinham falado com o Picão…

O grupo foi crescendo, e, muito por culpa da minha velocidade estonteante, a regra passou a ser “ninguém fica para trás”. Era curioso ver malta que perdia o treino, para esperar por mim, a cada esquina, a cada bifurcação no trilho. Ver o início das famosas piscinas. Lá vinham os cavalões para trás, e eu ainda a procurar o ar numa qualquer subida. Balbuciava um pedido de desculpas, recebia, sempre, um “Estás muito bem”.

O grupo cresceu mais e formou-se oficialmente a equipa. Monsanto Running Team (primeiro Monsanto Team Running). Claro que queremos, ou melhor, os que vão mais à frente querem, sempre fazer os melhores resultados possíveis. Mas fazemo-lo em grupo.

Competimos, como treinamos. Somos o que somos…

E na base temos sempre um espírito que dita que o desporto está primeiro. Primeiro diversão, camaradagem, honestidade e brio. Depois, então, procuramos ser um bocado melhores.

E surgem os avisos para o tipo de treino que será feito.

Como passámos a ter uma equipa, passámos a ter objectivos mais concretos para treinar, passámos a ser muitos, uma hora ficou pouca.

Por esse motivo, surgiram as iniciais, há um certo planeamento de cada semana e cada treino tem um ritmo e um objectivo, que são anunciados de véspera, de modo a não se fechar a porta a quem quiser participar, mas a toda a gente saber ao que vai.

E, hoje em dia, fazemos isto pelo país fora…

Treinos em Sintra, treinos no Montejunto e na Serra da Estrela são já habituais.

Sempre abertos a toda a gente, sempre uns pelos outros.

Damos as boas vindas aos novos elementos da equipa, com a mesma sinceridade que nos despedimos daqueles que saem em busca de outras aventuras, desejando a maior sorte do mundo.

Talvez por a equipa ter nascido de um treino que sempre foi aberto, e não o contrário, o treino ter nascido de uma equipa já formada, mesmo quem sai para outro desporto, outra equipa, sente-se sempre em casa connosco. E é assim que tem de ser.

Já sabem, diariamente, às 6:00h, temos encontro marcado no parque de estacionamento dos Bombeiros de Monsanto. E a partir daí… Esqueçam-se, podem fazê-lo à vontade, de quem eram e até porque lá chegaram, no meio de nós, serão uns de nós, por isso, aproveitem e divirtam-se porque uma hora passa rápido, e só repetimos no dia seguinte…