O EGO

 

Se eu mandasse, à entrada para qualquer local de desporto haveria uma placa que diria “O EGO FICA À PORTA”.

No desporto não há lugar para egos.

Isso não é o desporto.

O desporto é exactamente o oposto é desprendermo-nos do que somos, ao serviço de uma determinada modalidade. Seja individual ou colectiva.

Claro que existem motivações para fazer desporto, e claro que estas são pessoais e intransmissíveis. Um corre para emagrecer, outro faz cross fit para ficar maior, este faz ultra maratonas para contar aos amigos e aquele faz surf para se sentir no meio da natureza.

Mas passando essa motivação, que nos tira da cama, faz-nos vestir enquanto ouvimos a chuva a bater na janela e sentimos um arrepio ao vestir a camisola, depois manda-nos para o carro, sozinhos, para um dia mau de treino, começa o desporto.

E no desporto o ego fica à porta.

No momento em que saímos do carro, entramos no balneário, ou a porta da rua fecha-se atrás de nós, já não interessa, para nada, aquilo que nos levou ali. Interessa sim, fazermos o melhor que conseguimos, por nós, e, sobretudo, pelo desporto que representamos.

Daqui a um mês e meio faço 4 anos a correr à hora do esquilo. O tal treino das 6 da manhã em Monsanto.

Faço 4 anos deste grupo que se tornou numa equipa. Peguemos na primeira regra da hora do esquilo, “quando dois quiserem, há treino”.

Num desporto que se diz individual, numa equipa que nem sequer existia, o objectivo sempre foi trabalhar para o homem do lado. Bastava juntar duas pessoas, menos que isso, não chamaríamos treino à hora do esquilo, era só treino. O nosso treino era feito, pelo menos, a dois.

Preparavam o Paulo Picão para o UTMB 2013, e nem que chovessem canivetes, alguém tinha de ajudá-lo a conquistar a montanha. E ele retribuía, com a sua famosa generosidade e confiança. Normalmente, depois de alguém anunciar que ia fazer a primeira ultra, perguntávamos se tinham falado com o Picão…

O grupo foi crescendo, e, muito por culpa da minha velocidade estonteante, a regra passou a ser “ninguém fica para trás”. Era curioso ver malta que perdia o treino, para esperar por mim, a cada esquina, a cada bifurcação no trilho. Ver o início das famosas piscinas. Lá vinham os cavalões para trás, e eu ainda a procurar o ar numa qualquer subida. Balbuciava um pedido de desculpas, recebia, sempre, um “Estás muito bem”.

O grupo cresceu mais e formou-se oficialmente a equipa. Monsanto Running Team (primeiro Monsanto Team Running). Claro que queremos, ou melhor, os que vão mais à frente querem, sempre fazer os melhores resultados possíveis. Mas fazemo-lo em grupo.

Competimos, como treinamos. Somos o que somos…

E na base temos sempre um espírito que dita que o desporto está primeiro. Primeiro diversão, camaradagem, honestidade e brio. Depois, então, procuramos ser um bocado melhores.

E surgem os avisos para o tipo de treino que será feito.

Como passámos a ter uma equipa, passámos a ter objectivos mais concretos para treinar, passámos a ser muitos, uma hora ficou pouca.

Por esse motivo, surgiram as iniciais, há um certo planeamento de cada semana e cada treino tem um ritmo e um objectivo, que são anunciados de véspera, de modo a não se fechar a porta a quem quiser participar, mas a toda a gente saber ao que vai.

E, hoje em dia, fazemos isto pelo país fora…

Treinos em Sintra, treinos no Montejunto e na Serra da Estrela são já habituais.

Sempre abertos a toda a gente, sempre uns pelos outros.

Damos as boas vindas aos novos elementos da equipa, com a mesma sinceridade que nos despedimos daqueles que saem em busca de outras aventuras, desejando a maior sorte do mundo.

Talvez por a equipa ter nascido de um treino que sempre foi aberto, e não o contrário, o treino ter nascido de uma equipa já formada, mesmo quem sai para outro desporto, outra equipa, sente-se sempre em casa connosco. E é assim que tem de ser.

Já sabem, diariamente, às 6:00h, temos encontro marcado no parque de estacionamento dos Bombeiros de Monsanto. E a partir daí… Esqueçam-se, podem fazê-lo à vontade, de quem eram e até porque lá chegaram, no meio de nós, serão uns de nós, por isso, aproveitem e divirtam-se porque uma hora passa rápido, e só repetimos no dia seguinte…